domingo, 27 de agosto de 2017

Dilói

A noite , a lua arábica e o cheiro dos fantasmas leprosos...
Tão temidos, tão amaldiçoados, tão necessários,
Eles, eles , caminham trêmulos, à luz de velas acesas
Rezadas para lhes diluir.
A lembrança dilói
O cheiro dilói
A goiabeira dilói
Dilói a impotência.
Ao amanhecer os fantasmas sentem vigor,
Não são mais amaldiçoados,
Não trazem mais maus agouros.
Ao amanhecer
Os fantasmas sentem vigor.
Não são mais má notícia
Não mais existem no além.
E você pode nadar nu. Flávia R LIma

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sou órfã


Sou Órfã
Flávia Rocha Lima

Minha avó fez o croché
E minha tia remendou os detalhes
Fui daqui prali
Sem nome
Sem sobrenome
Tirei agulhas de sorrisos
Ao continuar remendando as vestes

Ainda agora
Me chamam de veludo
Sou desbotada
E seca como o cerrado

Meninos lobos sentem meu colo

F. R. L.

segunda-feira, 19 de maio de 2014


Para Alexandre Camargo Pacheco

Vai, meu anjo louro,
Bata os braços, força!
O deslumbramento
Está muito mais perto do que imagina!
Vá, bata os braços com força,
Deixe seu corpo sentir o prazer de ser eterno...
Já não mais é o afogado
Vá, bata suas asas...
Chegou!
Sim, é sua vida!
Vai, Pégaso, voa livre!
Sim, esse mundo lindo

É seu!

domingo, 11 de maio de 2014


Inamissível Amor

Cala em meus braços
O sonhado encontro som os seus,
Seca em minhas mãos
 O suor que lambuzaria as suas,
Guardo entre naftalinas
O vestido som os quais dançaria o amor.

Meu adeus
Está acompanhado de flores,
Cachoeiras e libélulas ferozes!

O que senti, por ter sido fecundo,
De mim efluirá
E encontrara a alma de algum disperso,
Viverá em outro corpo,
Dançara em outras luas,
Incapaz de fenecer.

Aos amantes faustos
A lascívia com a qual,
Excitada,

Lhe ofereceria o suco do meu sexo!
XXXIX

Tesouras brancas
Cortam em pedaços                     
Minha musa de veludo.
Brancas,
Por isso impunes,
Rasgam o vermelho ofendido
Daquela que já foi maciez e nostalgia.

Um barulho indecente,
O toque do aço com o tecido!
As mãos não são minhas,
Só os ouvidos incrédulos!

Um dia houve sol,
Amantes faustos de calor alheio,
A mulher penetrada por cães
E o rio frio que parecia eterno!

Vejo cabeças decepadas
 e a guilhotina abjeta
Alheia ao serviço que exerce.  
XXXVIII

Um dia antes de um ano,
Velas içadas no porto do meu coração!
Este assistindo impotente
O espetáculo de sua eterna partida.
Quando aqui chegou
Meus chalés cheiravam a mofo
E os meus lábios estavam cobertos por teias
Há muito e sempre tecidas.
Meu corpo magro
Era uma flor de paineira,
Dissolvendo nos tempos
Uma onça drogada,
Minhas anáguas amarelas
Cheiravam a urina,
Incontinência de quem
Há muito deixou o baile.
Tão solitária,
Por companhia espelhos seculares
Que deformavam o reflexo.
Tão só e tão aflita
Que não me dei conta de seu nome
Sussurrado em meus ouvidos.
 Mesmo assim,
A desbotada saia vermelha sangrou luz
E um fogo, há muito extinto,
Aqueceu minhas pernas,
Decrépitas, saudando o sol

Que me violentou a escuridão!
XXXVII

A noite cai,
Negra defunta, encobrindo os jasmins
Com o cheiro adocicado dos mortos.

Meus cabelos anelados
Sonhavam varandas e redes,
Eu estaria entre os vãos dos seus pensamentos
E sua mão
Afagaria os parasitas da minha cabeça.

Guardo guardadamente
O anel que tu me deste,
Não era de vidro
Brilha em sentimentos prismáticos
No interior de minha geografia.

Queria te mostrar a serra dourada,
A cachoeira da andorinha,
Minha filha loura!
Insatisfeita,
Almejo uma tarde qualquer

 Em que contaremos nossos nomes.