terça-feira, 10 de junho de 2014

Sou órfã


Sou Órfã
Flávia Rocha Lima

Minha avó fez o croché
E minha tia remendou os detalhes
Fui daqui prali
Sem nome
Sem sobrenome
Tirei agulhas de sorrisos
Ao continuar remendando as vestes

Ainda agora
Me chamam de veludo
Sou desbotada
E seca como o cerrado

Meninos lobos sentem meu colo

F. R. L.

segunda-feira, 19 de maio de 2014


Para Alexandre Camargo Pacheco

Vai, meu anjo louro,
Bata os braços, força!
O deslumbramento
Está muito mais perto do que imagina!
Vá, bata os braços com força,
Deixe seu corpo sentir o prazer de ser eterno...
Já não mais é o afogado
Vá, bata suas asas...
Chegou!
Sim, é sua vida!
Vai, Pégaso, voa livre!
Sim, esse mundo lindo

É seu!

domingo, 11 de maio de 2014


Inamissível Amor

Cala em meus braços
O sonhado encontro som os seus,
Seca em minhas mãos
 O suor que lambuzaria as suas,
Guardo entre naftalinas
O vestido som os quais dançaria o amor.

Meu adeus
Está acompanhado de flores,
Cachoeiras e libélulas ferozes!

O que senti, por ter sido fecundo,
De mim efluirá
E encontrara a alma de algum disperso,
Viverá em outro corpo,
Dançara em outras luas,
Incapaz de fenecer.

Aos amantes faustos
A lascívia com a qual,
Excitada,

Lhe ofereceria o suco do meu sexo!
XXXIX

Tesouras brancas
Cortam em pedaços                     
Minha musa de veludo.
Brancas,
Por isso impunes,
Rasgam o vermelho ofendido
Daquela que já foi maciez e nostalgia.

Um barulho indecente,
O toque do aço com o tecido!
As mãos não são minhas,
Só os ouvidos incrédulos!

Um dia houve sol,
Amantes faustos de calor alheio,
A mulher penetrada por cães
E o rio frio que parecia eterno!

Vejo cabeças decepadas
 e a guilhotina abjeta
Alheia ao serviço que exerce.  
XXXVIII

Um dia antes de um ano,
Velas içadas no porto do meu coração!
Este assistindo impotente
O espetáculo de sua eterna partida.
Quando aqui chegou
Meus chalés cheiravam a mofo
E os meus lábios estavam cobertos por teias
Há muito e sempre tecidas.
Meu corpo magro
Era uma flor de paineira,
Dissolvendo nos tempos
Uma onça drogada,
Minhas anáguas amarelas
Cheiravam a urina,
Incontinência de quem
Há muito deixou o baile.
Tão solitária,
Por companhia espelhos seculares
Que deformavam o reflexo.
Tão só e tão aflita
Que não me dei conta de seu nome
Sussurrado em meus ouvidos.
 Mesmo assim,
A desbotada saia vermelha sangrou luz
E um fogo, há muito extinto,
Aqueceu minhas pernas,
Decrépitas, saudando o sol

Que me violentou a escuridão!
XXXVII

A noite cai,
Negra defunta, encobrindo os jasmins
Com o cheiro adocicado dos mortos.

Meus cabelos anelados
Sonhavam varandas e redes,
Eu estaria entre os vãos dos seus pensamentos
E sua mão
Afagaria os parasitas da minha cabeça.

Guardo guardadamente
O anel que tu me deste,
Não era de vidro
Brilha em sentimentos prismáticos
No interior de minha geografia.

Queria te mostrar a serra dourada,
A cachoeira da andorinha,
Minha filha loura!
Insatisfeita,
Almejo uma tarde qualquer

 Em que contaremos nossos nomes.
CHOVE

Meu coração vazio, exposto,
É uma dessas arvores
Recebendo passivamente a chuva fria.

Toda a cidade, todo o mundo
Tornou-se o cinza dorido.

A chuva cairá durante todo o dia,
Meu coração sentado em alguma pedra, exposto,
A receberá como a inevitável realidade.

São árvores, são águas, são pingos,
São as ruas desertas e o vento...

A noite que demora,
A lua que não vem!

O instante é implacável,
 Tem o sabor da eternidade...
O coração encharcado,
Tremulo,friorento, adormece...
Ao longe os trovões falam de terras distantes,
De Pasárgada,
De mosteiros seculares
Onde vagueiam morcegos...

Hoje poderia ter feito sol
E não haveria no ar
Esse sentimento de renuncia,
Nem esse cinza que me  estraga as vistas

Um dia houve um rei,
No alto de seu castelo,
Na parte mais escura,
Sonhava lendas...
De tanto as sonhar
Tornou-se uma.

O velho rei, a velha lenda dos dias de chuva...
XXXV

A lua que te trouxe
Contou-nos histórias antigas.

Falou-nos do poeta tísico,
Que nas noites escuras
 Assombra os becos
Com as mãos manchadas de sangue e poesia...

Sobre à casa abandonada ,
Onde velhos frascos de perfume
Alucinam os que ali pernoitam...

Das histéricas virgens mortas
Que com seus longos cabelos
Enforcam os incautos...

Juntos ao pé do fogão,
Trêmulos e abraçados,
Vimos surgir, por século ocultas,
Vozes aveludadas daqueles que já não possuem rostos...


Quando o sol desabrochou!
O rio, a pedra, o vento...
Eu já poderia virar sereia

Diante dos seus olhos crédulos
E sua voz tornara-se um violino
Ao qual não pude resistir.

Agora, indiferente as manhãs que urdem lá fora,
Meu corpo sonha

O rio, a pedra, o vento...
XXXIV

Tive um sonho,
Sonhei com uma enorme lua azul.
Esta desceu dos seus
E me contemplou de frente.
Dela só restaram seus olhos alumbrados...
Como crias ou sementes
Esses dois viveram em mim,
Fizeram casa em minha virilha
E no meu útero
Construíram um castelo.
Eu me tornara o país da lua azul,
 Esta rodopiando sem nunca se encontrar,
Perdida em seu  eterno desassossego...
Havia montes frios,
Mares gelados em suas costas,
Homens peludos
Construindo embarcações
Com madeira de árvores
Que nunca sentiram a luz.
Peludos, fortes, balbuciando
Uma língua primitiva
Desprovida de fonemas.
Reinaram despoticamente
Na ignorância daquela abestalhada procura
E foram estes homens
Que um dia entraram pela minha goela,
Destruindo o exílio

Daquela que um dia amei!
XXXIII

Era tarde e a lua ainda ardia,
Ardiam velas, santos esquecidos,
Deuses pagãos.
A vida, essa também ardia.
E o ardor fez-se fogo,
Toda a existência,
Toda a realidade,
Uma imensa fogueira...
Rezo eu
Clamando às cinzas,
Clamando o fim dos impérios!
Minhas mãos já não podem
Fazer o sinal da cruz,
Nem meus joelhos
Quedar em templos.  
Sou eu a chama,

Sou eu a imensa fogueira.
XXXII

Estive louca
Acima das nuvens,
Ginguei quadris nas madrugadas
À sua procura,
Babei para a lua
Clamando sua volta,
Fui à sua porta,
Torta,
E não a abria.
Pus o vestido vermelho
E me contorci ao seu olhar,
Que vago, por mim passava.

Estive louca
E compus música
Na pauta de meus cabelos anelados,
Desafinada,
Urrada em desatino.

Estive louca,
Traí os deuses.
Roubei néctar e Ambrosia
E te ofereci
Entre as coxas
E pude lhe ver
Provando o sagrado
Como se profano fosse.

Estive louca,
Chorei e cheirei estrelas...
No fim nem a noite me queria.
Triste,
Mandei-te o último beijo,
Que não chegou,
Caiu despedaçado

 Do auto do meu amor.
XXXI

Abrem-se as portas,
Os dois cães cabisbaixos
Lambem o rabo.
Há no limiar da paixão,
Uma fruta seca,
Uma semente,
Envolvida em doces mortalhas.
As carícias
São beijos frios,
Delicados, vindos do sonho.
Faz escuro, tão escuro,

Que parece silêncio!
Dionísio e Apolo

No começo era a carne.
Vermelha,
Sangrando...
Cuspindo primariedade.

Depois, de algum céu azul
Vieram os perfumes
E o lábio

Disse amor.
XXIX

Preparei o vaso com as flores,
Escondi os retratos,
Tranquei no armário os fantasmas,
Abri as janelas e fiquei a sua espera.

Mansamente caminhava,
Tranquilamente...
Sem a pressa de quem pressagia
Os vislumbres por trás das aparências.

Vi seus passos e temi
Que antes de sua chegada,
As flores murchassem,
Os retratos gritassem

E os fantasmas se libertassem.
XXVIII

Já tomei oxigênio nas madrugadas escuras,
Ainda agora provei o néctar dos desvalidos,
Não receio as dores e o prazer conseqüente
Sempre sento em almofadas proibidas.
"De quem?"
"Dos que juram moribundade
Com olhos sadios."
Erga a taça, faça o brinde!
"Brindo a hipocrisia
 Que nos faz sobreviver!"

Suplico a noite que não pare,
Quero o cheiro das rosas desavisadas,
Do momento indiscreto em que delatam a doçura!  

Sofro
E sofrer é um rito antigo
De onde as sacerdotisas

Tirarão meu nome.
XXVII

Quem disse que o tresloucado é feliz?
Hóspede das decepções e dos desejos perfeitos.
Em cada esquina a lua já ardeu dourada,
Coitado, sempre atrasado!
O tresloucado já não tem anjo da guarda,
Acredito que este voou horrorizado.
É teimoso só espera a alegria,
Insensato insano ser do olfato perdido,
Aspirando selvagemmente as flores.
Ele quer o perfume das rosas artificiais,
Das orquídeas camufladas em matas impenetráveis
E também e tanto do devoto girassol!
Não deveria ter nascido
Sua vida afirma a dor,
Sua vida deu origem a tortura.
Olhe para ele!
Seus olhos sempre claros
Desesperados de tanto amor.
Lindo! Pensão uns, outros dizem:
-Genial!
Cegos não percebem o espetáculo bárbaro,
Do seu suicídio inerente e lento.                                                            
XXVI

Cores lustrosas, adversas, tímidas,
Gritando um nome...
Ovações abissais
No inferno de uma alma.
Louca,
Procura nos quartos escuros
A resposta para todas as perguntas.
O que é um trinado?
Que seja apenas a mudez daquela voz.
Elegante, sim,
Uma mulher elegante,
Que rasga as roupas

E se lambe no espelho.
XXV

Seu coração morto
É roubado
E por amor renascido,
Você já não sabe o que dele fazer.
Suas batidas
Assustam seu peito inerte,
Sua carne verde,
Como um zumbi vaga nas ruas.
Oh Lázaro, te sentistes assim?!
O movimento dos carros,
O sorriso nos rostos,
Já nada dizem.
Se lhe oferecerem uma flor
Chorará, porque se lembrará
Que como você
A arrancaram da terra.
Não lhe culpo o estranhamento,
Sei que já não tem
A graça dos vivos.
Vejo seus olhos vidrados,
Sua boca sem sentido
Soltando palavras tremulas
Crescidas sem impulso.
Procura por alguém na multidão

Incessantemente, intermitentemente...
Perfume Profano

Onde está o brilho dos seus olhos cálidos,
Do seu jeito de cobra criada?
Ah minha serpente,
Você é o Paraíso Lascivo,
Com dedos, músculos e ginga de quadris!
Eu sou Eva
E não quero a maçã.
Quero o pecado original inteiro
No vão das minhas pernas!
Vem, contorça-se em minha alma,
Cochiche em meus ouvidos
As palavras indecentes
Libertadoras dos prazeres!
E que sua língua limosa, pegajosa,
Entre em todos os orifícios do meu corpo:
Ouvido, umbigo, nariz, ânus...
Depois disso,
Duvido que me ofereça
A maçã.


XXIII

Subíamos a Rua D’Abadia em bandos,
Bandos loucos de gente lírica
Passávamos pelo cemitério
E enfim Santa Bárbara.

Parecia que a vida
Iria sempre sorrir
E nos presentear com sóis vermelhos.
Tínhamos sonhos
Surrealistas
Que exasperavam qualquer realidade.
Foram naqueles momentos,
No paradoxo entre ilusão e impotência,

Que nossos deuses subiram aos céus.